
O drama do jogador Ronaldo se repete 8 anos depois. Uma lesão grave no tendão patelar do joelho esquerdo vai tirar o jogador de campo por no mínimo 9 meses. A recuperação é esperada, mas é lenta.
Lesões esportivas são comuns aos atletas de alto rendimento, pois o esporte leva o corpo ao limite: da dor, da pressão, da exaustão. Estatísticas mostram que cerca de 15% de atletas de elite ficam fora do treinamento por pelo menos um mês em cada temporada devido a lesões (Samulski, 2002).
No entanto, quando falamos em lesão não podemos tratar apenas da lesão física, mas também da "lesão" psicológica (o traumatismo) que acompanha a dor. Ai entra a necessidade de um suporte multidisciplinar ao atleta lesionado, que precisará de muita dedicação para sair desse estado. Médicos, técnicos, preparadores físicos, fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos do esporte devem fazer parte dessa equipe.
O papel do psicólogo é essencial para compreender o atleta e auxiliar toda a equipe e familiares no suporte que ele necessitará.
Normalmente um atleta lesionado passa por reações psicológicas semelhantes as vividas por pessoas que perdem entes queridos. O atleta realmente fica no estado de luto, pois ele perdeu (por pelo menos um tempo) a capacidade de exercer o seu trabalho, que é onde ele se reconhece. Um dos modelos mais aceitos que explicam essa reação psicológica do atleta é o de Grief Reaction proposto por Kübler-Ross. Nesse modelo o atleta passaria por 5 fases:
1. Negação
2. Raiva
3. Barganha ou negociação
4. Depressão
5. Aceitação e reorganização
A velocidade com que o atleta passa por cada uma dessas fases vai diferenciar de um para outro, mas basicamente todos atletas teriam um momento de negar e não aceitar a lesão, em seguida sentir raiva por isso ter acontecido com ele, podendo se tornar agressivo com quem está ao seu lado. Em seguida, o atleta tenta "negociar com ele mesmo" tentando se curar mais rapidamente: "se eu me recuperar mais rápido prometo treinar mais forte".
Vendo que essas tentativas não surtem efeito, o atleta pode entrar no estado depressivo, principalmente por conta da incerteza sobre seu futuro.
É, somente, quando entra no último estágio que o atleta começa a se responsabilizar por sua recuperação, pois ele aceita sua lesão da forma como ela é, sem fantasias de melhoras milagrosas e nem idéia de nunca mais se recuperar, e se reorganiza para buscar a melhora.
O trabalho do psicólogo do esporte é essencial para auxiliar o atleta a superar cada um desses estágios e aceitar que ele deve lutar por sua recuperação. A informação realista sobre sua lesão e sobre as possibilidades de recuperação são extremamente importantes para o atleta. O acompanhamento psicológico pode incluir técnicas como:
1. Estabelecimento de metas, que podem ser diárias, semanais e mensais. Isso irá ajudar o atleta a se concentrar nos exercícios de recuperação, visualizar a volta ao esporte e perceber o percurso da sua recuperação.
2. Auto-conversação, que auxilia o atleta a "educar" seu pensamento, modificando pensamentos negativos para positivos, aprendendo a bloquear os pensamentos "que não ajudam" na recuperação. Pensar de maneira positiva contribui para o bem-estar do atleta.
3. Visualização e relaxamento, entre outras intervenções que farão parte do planejamento psicológico da recuperação.
Dependendo do grau da lesão e do preparo psicológico do atleta a recuperação é mais lenta ou mais rápida.
Ronaldo Fenômeno já mostrou, oito anos atrás, que é capaz de se recuperar e confia como ninguém nele mesmo. Então, Fenômeno, boa sorte e mãos a obra!!!
Até a próxima
Fonte: Samulski, D. Psicologia do esporte. Ed. Manole. Barueri, São Paulo, 2002.
